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Ecoando - Ecologia e Caminhadas

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  Diário de Trilha    
  Circuito das Minas
18/07/2010
 
 

Devido à semana chuvosa e às previsões de mais água, muita gente cancelou de véspera sua participação nesta caminhada. Uma pena, pois além de não ter caído nem mais um pingo, chegou a abrir sol.

 

Mas, para ser franco, eu mesmo achava que seria preciso usar capa de chuva - senão o tempo todo, pelo menos grande parte dele - e que não ia aparecer ninguém. Só que nenhum desses motivos seria suficiente para me demover da decisão de cumprir o roteiro, já que, caso contrário, este seria o terceiro cancelamento consecutivo da programação do Ecoando - algo não muito desejável em uma organização que depende da motivação e da confiança de seus adeptos para existir. Porém, o que também pesou nesse meu – literalmente - pé firme foi o fato de o roteiro ser próximo, não haver grandes riscos e o impacto da pisada de um, dois ou três caminhantes sobre o solo molhado de uma antiga área de exploração não ser lá muito grave.

 

No entanto, felizmente, também a segunda suspeita não foi confirmada: um associado estreante apareceu e assim não foi preciso caminhar como um eremita. E a trilha, apesar de apresentar alguns poucos trechos empapados e escorregadios, estava bastante razoável. Tanto que conseguimos realizar o circuito completo, seguindo o sentido inverso (horário) ao planejado originalmente, para justamente priorizar a segurança. Assim, o trecho mais íngreme e escorregadio seria utilizado para a subida ao invés da descida, prevenindo tombos.

 

Iniciamos a caminhada na localidade de Spar, às 8h30, subindo a trilha que ocupa a antiga estrada que serviu às minas de feldspato, cuja exploração foi encerrada na década de 1980. Para quem não sabe, o feldspato é um mineral constituinte das rochas, utilizado na fabricação de vidros, porcelanas, tintas, etc. E o nome incomum do lugar se deve a Luiz Sparano, figura ilustre que já ocupou o cargo de ministro em meados do século 20.

 

Em pouco tempo chegávamos à estrada aberta e ainda utilizada pela Mineração Spar, de pedra britada, observando à distância a enorme cava na rocha. Andamos alguns poucos metros nesta via íngreme e fofa devido ao revestimento de pó de pedra e brita, até entrarmos novamente na trilha.

 

Chegamos à entrada das minas - um largo e baixo túnel outrora utilizado por caminhões para o escoamento do minério - às 9h. Daí a alguns minutos de escuridão e chegávamos à maior de todas as cavidades, a qual denominamos no Ecoando de Mina 1 ou da Colmeia, devido ao fato de ter existido em seu teto, há até alguns anos, uma enorme colônia de abelhas.

 

Esta talvez seja a mina que mais se assemelhe a uma caverna natural, inclusive por conta de sua desconcertante beleza cênica. Desconcertante sim, pois não se pode esquecer que tal intervenção é uma ferida perpétua no solo e na mata, que jamais se fechará ou terá como ser satisfatoriamente recuperada. Mas tais características guardam a potencialidade de serem utilizadas de forma bastante proveitosa em educação ambiental crítica, gerando temas para reflexão e debates, tais como: satisfação das necessidades humanas X exploração dos “recursos naturais”; formas corretas e incorretas do usufruto de bens existentes na natureza; apropriação privada de bens difusos (ar, minerais, morros, paisagens, etc.); alternativas mais ecológicas; etc.

 

Voltando à Mina da Colmeia, há nela um amplo salão interligado a nichos um pouco menores e uma interessante passagem, assim como muita areia e monturos de rochas espalhados em vários lugares. O teto, que em sua parte mais alta está há mais de 10m, é incrustado com uma variedade incrível de cristais e outros minerais brilhantes (como a mica), o que dá um efeito de céu estrelado quando se direciona o foco da lanterna. Isso também acontece em alguns trechos do solo cobertos por uma camada de malacacheta pulverizada, semelhante à purpurina. O silêncio chega a ser quase concreto de tão pleno. Há também uma tênue luminosidade entrando por uma das duas cavidades mais largas, o que confere ainda mais beleza ao cenário. Andorinhas voam de um lado para outro nesta abertura ornada por epífitas e, no lado oposto, na sala mais escura e fechada, é possível ouvir as vocalizações dos morcegos. Como neste trecho o ar é mais viciado e pode estar contaminado com fungos altamente patogênicos, como ocorre em cavernas habitadas por estes mamíferos voadores, não entramos muito.

 

Depois de visitar cada canto viável dessa inusitada e interessante formação artificial, entramos na baixa passagem que nos levaria às outras cavidades. Neste túnel de uns 6m de extensão, onde não se enxerga a saída e é muito escuro, é necessário se agachar bem, ainda assim correndo o risco de dar com a cabeça no teto. Saímos em outra mina, a 2, bem menor e com uns três salões, prosseguindo para a Mina do Lago (3).

 

Igualmente semelhante a um túnel, porém de teto bem mais alto que os dois anteriores (7m?), esta mina possui um espelho d’água de aproximadamente 6m² que se formou com o atingimento do lençol freático. A água costuma ser tão cristalina e plácida que não é raro o caminhante meter o pé na água, confuso com os reflexos e o fundo tão visível. Mas, naquele dia, ela estava meio turva, talvez devido às chuvas. A brita da Mineração Spar é lavada com essas águas, captadas por canos de ferro.

 

A próxima mina, a de número 4, estava quase totalmente alagada, o que é raro e nos obrigou a entrar até onde foi possível, ou seja, alguns poucos metros. Assim, seguimos logo para a Mina das Colunas (5), um conjunto de aproximadamente três ou quatro cavidades em sequência e com aberturas localizadas entre colunas colossais de quartzo branco. Tiramos muitas fotos e resolvemos experimentar a trilha que levaria à cumeeira da Serra do Calaboca. Em poucos minutos estávamos no alto, curtindo as vistas dos baixadões de São Gonçalo, Itaboraí e Magé, além de algumas serras, como a de Cassorotiba.

 

Às 11h chegávamos ao marco histórico de pedra da Estrada Real de Maricá, com suas inscrições esculpidas a cinzel e que marcou talvez o mais movimentado caminho de tropeiros destas bandas antes do século 20. O mesmo perdeu sua importância ainda em 1820, quando da abertura da Estrada do Baldeador, a mando de D. João VI. É desta época adoção do nome “Calaboca” para aquela que era conhecida como Serra de Itaitindiba, segundo o padre Paulo Machado, autor do livro Maricá, meu amor. É que, segundo o antigo pároco maricaense, salteadores atacavam os viajantes num dos trechos críticos da via (a Garganta do Calaboca, onde hoje passa a Rodovia Amaral Peixoto), obrigando estes a “calarem a boca” para não serem mortos. Mudam-se os tempos, os nomes e os lugares, mas permanecem alguns problemas...

 

A descida para Santa Paula, localidade limítrofe com o Spar, foi o trecho mais crítico da caminhada: muita lama, seções que mais pareciam sabão de tão escorregadias e uma área recentemente desmatada. Tirei fotos desta e fiquei de fazer a denúncia do suposto ilícito ambiental junto às autoridades. Também encontramos muito lixo, indicando que o problema da coleta municipal, que já se arrasta há meses em Maricá, ainda não havia sido equacionado pela prefeitura.

 

Passamos a caminhar pelo asfalto até chegarmos ao carro. Terminamos o passeio às 11h30.

 

Valeu pela perseverança e a canja de São Pedro! Até a próxima trilha!

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador   

 

 

P.s.: Gostaria de compartilhar com os leitores meu sentimento de aflição com o fato de um lugar com potencialidades ecoturísticas e educacionais tão extraordinárias e inusitadas como as Minas de Inoã esteja também tão abandonado, sendo subutilizado ou ameaçado de se tornar esconderijo de bandidos.

 

Que espetacular atrativo turístico seria este para Maricá e para a própria Região Metropolitana, caso tal local recebesse uma recuperação com bases ambientais sérias (como recomposição de flora nativa e tratamento paisagístico/ecológico), além de logística de visitação (reestruturação de trilhas, acessibilidade, centro de visitantes e placas com informações multidisciplinares)! Isso, aliás, certamente traria maior visibilidade ao município, assim como atrairia investimentos verdes, criaria empregos, fomentaria a proteção dos ecossistemas envolvidos e incrementaria o desenvolvimento local em bases sustentáveis.

 

Será que os proprietários das terras onde estão as minas nunca se deram conta da “mina” de ouro que têm nas mãos? Ainda mais agora, que a Copa e as Olimpíadas estão aí...

 
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