O céu azul e sem nuvens no ponto de encontro já anunciava um dia esplendoroso de caminhada. Iniciamos o roteiro de nome estranho às 8h20, na Pracinha do Engenho do Mato, seguindo o sentido horário do trajeto circular. Assim, os últimos quilômetros da marcha – que adentrariam a penumbra do anoitecer – se dariam em área menos erma, daí mais segura.
Mostrei ao grupo onde ficava o engenho de açúcar da Fazenda Engenho do Mato (onde hoje é o CIEP Ruy Frazão) e as ruínas da casa grande, estas dentro da Fundação Leão XIII – testemunho do descaso do poder público estadual para com o patrimônio histórico que deu nome a um bairro. Com base na pesquisa da historiadora Lúcia Mendonça, indiquei também a localização da jazida de caulim, argila nobre que foi explorada pela proprietária da fazenda – Irene Lopes Sodré – para ser usada na construção da Companhia Siderúrgica Nacional, à época da Segunda Grande Guerra.
Enquanto caminhávamos pelas estradinhas internas do bairro, contei também sobre o Plano de Ação Agrária, belíssima mas fracassada tentativa governamental de proteger e assentar sitiantes (meeiros) remanescentes da Fazenda. Estes se encontravam ameaçados de expulsão de suas casas e lavouras, à época, pela implantação do loteamento Jardim Fazendinha, iniciado logo após a falência daquela e a morte de Irene Sodré, uma situação que se amplificou numa série de outros problemas socioambientais. Isso porque, além da compra de lotes por proprietários de boa fé, vieram posteriormente grileiros e invasores, agravando os conflitos. Para piorar, os próprios limites do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset) não respeitaram a área que foi desapropriada para os trinta sitiantes escolhidos ainda na década de 1960. Daí alguns considerarem o Engenho do Mato um barril de pólvora social prestes a explodir!
Prosseguindo pelo Caminho Darwin, notamos que a estrada São Sebastião, mais conhecida como Vai-e-vem, estava em estado realmente lastimável. Este é o único meio de acesso a carros de passeio ao restaurante Verdejante, da artista plástica Maria Pia Mosto, prestes a ser desapropriado pelo governo estadual por conta de estar dentro dos limites do Peset. Uma pena essa situação, pois talvez não haja tempo de seus clientes se despedirem daquele que era um atrativo gastronômico dos mais famosos em Niterói (apesar de já estar do lado de Maricá). Lanchamos no recuo em frente a este restaurante, embaixo de um bambuzal.
No mirante onde é possível ver a Fazenda Itaocaia e a Pedra homônima numa bela composição, li em voz alta o trecho do relato de Darwin sobre o local. Tentamos visitar a construção histórica, mas não havia ninguém para nos receber. Assim, só tiramos fotos e continuamos.
Andamos pela estrada principal até virarmos numa rua que nos levaria o mais próximo possível das faldas (sopé) da Serra da Tiririca. Seguimos ora por estradinhas, ora por caminhos até o Morro da Penha. Neste trecho fui contando sobre a resistência armada de alguns sitiantes tradicionais contra o avanço da especulação imobiliária, representada deste lado pela Melgil Imobiliária.
O incrível dessa história é que, durante o auge da ditadura militar, esta empresa chegou a abrir estradas até o topo da Serra (além da que resistiu até hoje, na Serrinha), planejando lotear tudo. Felizmente alguns sitiantes-guerrilheiros se insurgiram contra os desmandos e ameaças, desmotivando assim os especuladores a continuar com o delírio de ocupar toda a encosta sudeste da Tiririca com casas e ruas. Mas o pretensioso nome do loteamento - Morada das Águias - e algumas de suas casas, nos limites da Serra, continuam como testemunhos dessa época, assim como alguns sobreviventes da guerrilha que temos notícia: Dico e Joel.
Apesar do crescimento acelerado e desordenado, a área guarda um aspecto rural e muita beleza cênica. Há ainda muitos remanescentes florestais, além das matas encontradas na própria Serra, assim como áreas úmidas e algumas lavouras. Existe inclusive um trecho que, se bem enquadrado numa lente fotográfica, lembra um pouco as paisagens que Darwin deve ter visto em sua passagem pela região, em 1832: canaviais, matas e a Pedra de Itaocaia ao fundo, sem vestígios de habitações (ver foto em GALERIA DE FOTOS). Uma verdadeira imagem viva da história!
Mas, nem tudo são flores. Há também bolsões de miséria, alguns trechos com muito lixo e áreas bastante degradadas. Sobre o lixo, parece que a Prefeitura de Maricá não anda conseguindo equacionar o problemático serviço de coleta, já que, em muitos lugares por onde passamos, havia montanhas de resíduos. Porém, considero importante levar os caminhantes a ver este lado feio dos lugares visitados, para que tenham a oportunidade de analisar criticamente a realidade e buscar, quem sabe, influenciar nas políticas e nos órgãos públicos.
Aliás, no contato com alguns moradores, pudemos perceber que a fiscalização ambiental parece ter se aprimorado. Ouvimos alguns deles se queixarem de não poder fazer o que achavam ser seu direito (como cortar árvores que consideravam “de mato”), já que os fiscais estavam sempre “em cima”. Isso demonstra que o trabalho de orientação e mesmo autuação do Peset em relação a ilícitos ambientais parece estar funcionando e mostrando resultados, o que é digno de aplausos, já que o pessoal do Parque trabalha com pouquíssimos recursos materiais, financeiros e humanos.
Uma vez no Morro da Penha – contraforte da Serra da Tiririca, que forma o chamado Recanto de Itaipuaçu – não tivemos como fugir da tumultuada área urbana, algo ainda mais característico em Maricá. Parece não haver ordenamento urbano, não há calçadas, a sinalização é precária, os automóveis não respeitam os pedestres, etc. Mas, felizmente, foi por pouco tempo nossa passagem por ali: daí a alguns minutos, estávamos nas cálidas e grossas areias da Praia de Itaipuaçu, com o Alto Mourão (ou Pedra do Elefante) como a referência mais notável.
Como já havíamos passado um pouco da metade do percurso e ainda tínhamos tempo, resolvi propor uma parada num barzinho de praia, da Dona Jane. E é claro que todos toparam, até porque tinha pastel e uma tendinha privativa muito confortável. O difícil foi continuar a caminhada depois...
Após atravessarmos o Canal de Costa, de volta para a estrada, um inscrito resolveu abortar a caminhada, pegando uma kombi até Itaipu (como já havia anunciado desde o início e parece estar virando costume para ele). Despedimos-nos com muita encarnação, adotando até uma alcunha para o mesmo: Lankombi.
Porém, a desistência era compreensível, já que a pior parte da caminhada estava por vir: a subida da Serrinha. Além de extremamente íngreme, esta ladeira estava com trânsito em meia pista em diversos pontos, por conta de desbarrancamentos ocorridos nas chuvas de abril passado. Assim, teríamos que ficar vigiando os carros, além de dar conta do fôlego e da falta de lugar adequado para se caminhar. Nas paradas, falei sobre as histórias do “Descansa Caixão” (nome do topo do antigo caminho), do acidente fatal da jardineira (pequeno ônibus que ligava um lado a outro da Serra na virada das décadas de 1960/1970) e da velha escrava que morou numa casa de pau-a-pique pelos idos de 1927, onde hoje passa a trilha para o Alto Mourão. Uma inscrita complementou essa riqueza histórica relatando uma caminhada que fez no local, no início da década de 1960, quando a estrada era ainda uma trilha de tropeiros.
Chegamos às 16h ao Bar Fiel, construção centenária ameaçada pela especulação imobiliária na descida da Serrinha, em Itaipu. Aí, duas inscritas desistiram, uma por já sentir satisfeita e a outra por estar com fortes dores numa das pernas. Prosseguimos então, eu e mais duas caminhantes, heróicas sobreviventes. Como lembrou uma destas, essas desistências consecutivas pareciam passagem do filme Tropa de Elite, com aquele bordão: “pede para sair!”.
Fugindo da Estrada Francisco da Cruz Nunes, de maior movimento, entramos no Bairro Peixoto, voltando a caminhar bem na beirinha da Serra. Entramos na trilha do Córrego dos Colibris, onde descansamos um pouco no largo do laguinho. Ali contei que a primeira Ação Civil Pública do país aconteceu neste local, com a vitória da comunidade contra um loteamento ilegal. Contei também que, daí mais alguns anos, em 1991, por proposição popular também pioneira, era criado o Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Depois de mais alguns minutos na Estrada do Engenho do Mato, adentramos agora o loteamento Vale Feliz, última área da Fazenda homônima entregue à especulação imobiliária, na década de 1950, talvez devido à perseverança ou ao idealismo de Irene Sodré. Apesar de também sofrer com o crescimento acelerado e o desmatamento de lotes que pertenceram aos limites provisórios do Peset, excluídos pela Lei que aprovou os definitivos em 2007 reduzindo assim sua área, o local é bastante arborizado e tem a onipresença das matas da Tiririca. De alguns lugares, é possível também apreciar a Serra do Malheiro e a Pedra do Cantagalo, elevações pertencentes à Reserva Darcy Ribeiro, maior área continua de Mata Atlântica de Niterói.
Às 17h30, completávamos o circuito, no mesmo cruzamento onde fizemos o bate-papo preliminar à caminhada. Encerramos o estirão às 17h40 na Pracinha do Engenho do Mato, já no escuro da noite, com a sensação do dever cumprido e aquele cansaço gostoso de um dia inteiro de andanças.
Parabéns ao grupo e, em especial, às sobreviventes que cumpriram o percurso originalmente proposto! Essas são guerreiras!
Até a próxima caminhada!
Abraços,
Cássio Garcez
P.s.: importante esclarecer sobre os motivos da escolha deste nome tão incomum e mesmo cômico para um roteiro ecológico: Peritiririca.
“Peri”, relembrando as aulas de português, é um radical latino que significa “em torno de”, como na palavra “periférico”. Tiririca, por sua vez é ao mesmo tempo o nome de uma planta e do parque estadual localizado entre Maricá e Niterói, que contornamos (sua área central) nesta nossa caminhada do Ecoando.
Assim, tanto o roteiro quanto seu nome foram elaborados como contraponto a algumas vozes isoladas no Inea (Instituto Estadual do Ambiente) que defendem a abertura da antiga e abandonada trilha de tropeiros da cumeeira da Serra – chamada por alguns de “Transtiriririca” – à visitação. Caso isso acontecesse, como se aventou em uma lista de discussão eletrônica no ano passado, áreas consideradas ecologicamente frágeis e indicadas apenas ao acesso de cientistas e da fiscalização (ou seja, potenciais zonas núcleo de uma unidade de conservação já carente delas), teriam sua integridade ameaçada por visitantes nem sempre tão conscientes.
Como nós, do Ecoando, nos opúnhamos desde o início a esta possibilidade, assim como quase todos os especialistas que consultamos (entre eles os professores-doutores Jorge Antônio Pontes e Ana Angélica Monteiro de Barros, além do mestre Igor Camacho, biólogos de reconhecida atuação no Peset), foi criado o roteiro Peritiririca.
O objetivo era provar que é possível conhecer a Serra da Tiriririca quase de cabo a rabo, sem causar qualquer impacto a seus ecossistemas – muito ao contrário da “Transtiririca”.