A Floresta da Tijuca estava deliciosamente vazia de gente, talvez por conta da temperatura mais amena. Iniciamos nossa caminhada no Barracão (8h40), adotando o sentido horário do circuito com a subida pelo Vale das Almas.
Daí a alguns minutos, chegávamos a Cachoeira das Almas, única queda d’água permitida ao banho pela direção do Parque Nacional da Tijuca (PNT) naquele setor. Mas, também devido à temperatura mais baixa, não havia ninguém por ali. Interessante lembrar que, o nome do rio e do vale – das Almas – vem do fato de escravos e seus descendentes terem utilizado este local para seus cultos e oferendas, segundo alguns autores (como Carlos Manes Bandeira).
Subimos um pouco mais, saindo da mata no Restaurante A Floresta, área pertencente à antiga fazenda de café do Midosi. Esta propriedade foi posteriormente utilizada pelo Major Archer e seus seis escravos como centro irradiador do reflorestamento, sobre o qual contei um pouco desta fascinante história às caminhantes.
Mais algumas centenas de metros e chegávamos ao Largo do Bom Retiro, lugar que homenageia o idealizador do reflorestamento – Luiz do Couto Ferraz, o barão do Bom Retiro. Ali começava o trecho mais trilheiro da caminhada.
Subimos pausadamente a trilha do Pico da Tijuca, encontrando muito pouca gente, como esperávamos (jamais agendamos uma subida a este ponto culminante do PNT em domingos ou feriados, por conta da sobrecarga de visistação). Às 11h30 chegávamos às escadarias escavadas na rocha em 1926, a mando do presidente Washington Luiz para a visita do Rei Alberto da Bélgica.
Como esta parte do trajeto é bastante alta, aberta e íngreme, a sensação de exposição a altura aumenta, apesar de praticamente não haver risco de queda – já que é uma escadaria e ladeada em sua maior parte por grossas correntes. Por conta dessa sensação, algumas pessoas demonstram uma dificuldade maior nesta passagem, como foi o caso de uma de nossas inscritas. Porém, nada que um pouco de calma, palavras de incentivo e muito apoio não resolvessem. Para ajudar-nos nesse trabalho, apareceram num arbusto no meio da subida, bem próximo de nós, duas saíras sete-cores, pássaros extraordinariamente coloridos. Sua exuberância quebrou um pouco a tensão daquele momento.
Chegamos ao cume às 12h. Havia outras pessoas lá em cima, certamente vindas do trajeto por onde desceríamos: o Vale da Caveira. Ficamos aproximadamente uma hora aí, lanchando, apreciando as vistas e curtindo o solzinho delicioso de inverno. Pena que a visibilidade estava um pouco prejudicada pela névoa e a poluição.
Descemos até o Pico da Tijuca Mirim, que estava totalmente vazio. Interessante notar que, apesar de menos conhecido e frequentado, este contraforte do Pico da Tijuca possui uma vista melhor do que a de seu irmão mais famoso. Quando estávamos chegando aí, ouvimos muitos fogos nas áreas urbanas próximas, o que achei ser por conta de gols da Alemanha contra a Argentina, na semifinal da Copa. Confirmado: foram 4 x 0.
Descemos às 13h30 pela face oeste do Tijuca Mirim, em direção ao já citado Vale da Caveira. Há um interessante abrigo rochoso logo após esta descida, onde, infelizmente, alguns pichadores deixaram suas marcas. No mesmo local, em meio à vegetação, uma inscrita descobriu um tatu em sua busca por insetos e um pássaro o seguindo de perto, com o provável objetivo de se aproveitar dos bichinhos que passassem despercebidos do cavucador. Por pouco não deu para fotografarmos aquela bela e rara cena.
Às 14h30 saíamos na Estrada do Excelsior, dando logo de cara com um pequeno bando de tangarás no alto de um arbusto – pássaros cujos machos exibem cores azul e vermelha brilhantes, além de serem conhecidos por uma curiosa dança de acasalamento. Logo a seguir, encontramos um fotógrafo profissional, o Rui Salavery, que estava à caça justamente desses pequenos habitantes da floresta. O mesmo nos falou do raro tangarazinho, da família daqueles primeiros, reproduzindo para nós sua vocalização no celular. Daí a pouco aparecia o próprio, querendo ver e talvez espantar o “intruso”. Mas foi tão rápida a aparição que não deu para ninguém fotografar nada. Nos despedimos e continuamos a descida.
Um pouco mais adiante, vimos um tucano em meio à copa das árvores. Às 15h30 chegávamos ao carro, fechando o circuito e o bem aproveitado dia de caminhada.
Abraços,
Cássio Garcez